Falar sobre a rotina de quem usa farda no Rio de Janeiro passa, inevitavelmente, por um dado incômodo: o risco de morte no exercício da profissão. O Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ) mantém, há anos, um levantamento sistemático sobre policiais mortos em serviço no estado — números que ajudam a dimensionar, de forma institucional e sem sensacionalismo, o risco real enfrentado por quem trabalha na segurança pública fluminense, dado que orienta inclusive políticas públicas de proteção ao efetivo.
O que diz a metodologia do ISP-RJ
O ISP-RJ utiliza a definição estabelecida pela extinta Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) para quantificar mortes de policiais em serviço: são contabilizadas as mortes violentas de profissionais da segurança pública ativos e de guardas municipais decorrentes do exercício da função, estejam eles em serviço formal ou não no momento do episódio. Essa definição ampla é o que permite ao instituto manter uma série histórica consistente ao longo dos anos, hoje disponível publicamente em seu portal de dados abertos.

Manter uma metodologia padronizada, como a adotada pelo ISP-RJ, é fundamental para que comparações entre anos diferentes façam sentido estatístico — evitando, por exemplo, que mudanças na forma de contar os casos distorçam a leitura da evolução real do risco enfrentado por policiais ao longo do tempo.
A alta de 2025 em relação ao ano anterior
Segundo dados consolidados pelo próprio instituto, o ano de 2025 registrou 13 policiais militares e 6 policiais civis mortos no Rio de Janeiro — número superior ao registrado em 2024, quando foram contabilizados 11 policiais militares e 1 policial civil mortos. A comparação entre os dois anos mostra uma alta expressiva na categoria, dado que reforça por que o tema segue sendo monitorado de perto por institutos de pesquisa e pela própria corporação.
Levantamentos também mostram que, historicamente, uma parcela relevante dos policiais mortos de forma violenta no Rio estava de folga no momento do episódio — um dado que reforça como o risco da profissão, em muitos casos, não se limita ao horário formal de serviço, alcançando também momentos de folga em que o policial é reconhecido ou se vê diante de uma situação de crime em andamento.
A série histórica: o pico de 2016
Um estudo do próprio ISP-RJ, intitulado “Vitimização Policial no Estado do Rio de Janeiro: Panorama dos Últimos Cinco Anos (2016-2020)”, mostra que, nesse período de cinco anos, 133 policiais militares foram mortos em serviço no estado, dentro de um total de 148 policiais mortos somando as duas corporações. O pico da série histórica analisada ocorreu em 2016, quando 38 policiais militares e 2 policiais civis foram registrados como mortos — o ano mais letal do levantamento.

Comparar os números de 2016 com os de anos mais recentes, como 2024 e 2025, ajuda a entender que, apesar das oscilações, o risco de morte em serviço segue sendo uma realidade persistente na rotina da segurança pública fluminense, mesmo em períodos de menor letalidade em relação ao pico da série histórica.
Por que esse dado importa no debate público
Números como esses costumam ser citados em debates sobre segurança pública para contextualizar o grau de exposição ao risco que caracteriza a rotina de quem atua na ponta da segurança do estado — seja em patrulhamento ostensivo, seja em operações de maior complexidade contra o crime armado. É esse tipo de estatística institucional, e não relatos isolados, que compõe a base de dados usada por pesquisadores, órgãos públicos e organizações da sociedade civil para acompanhar a evolução da violência contra policiais no Rio de Janeiro ao longo do tempo.
Vale reforçar que os números aqui apresentados são os divulgados publicamente pelo ISP-RJ em seus relatórios e no portal de dados abertos do instituto, sujeitos a atualizações periódicas conforme novos levantamentos são publicados pelo próprio órgão.

O que órgãos públicos e pesquisadores fazem com esses dados
Dados como os produzidos pelo ISP-RJ não servem apenas como retrato estatístico: eles também alimentam políticas públicas voltadas à proteção do efetivo policial, como programas de reforço de equipamentos de proteção individual, protocolos de segurança para operações de maior risco e estudos sobre as circunstâncias mais recorrentes em que policiais são vitimados em serviço. Órgãos de pesquisa em segurança pública costumam cruzar esses números com outras variáveis, como tipo de ocorrência, região do estado e horário do episódio, para identificar padrões que ajudem a reduzir a exposição ao risco ao longo do tempo.
Esse tipo de análise também é usado por gestores públicos para justificar investimentos em treinamento, equipamento e reforço de efetivo em áreas consideradas de maior risco operacional, dentro de um esforço contínuo para reduzir os números de policiais mortos em serviço registrados a cada ano no estado.
Comparação com outros indicadores de segurança pública
Pesquisadores costumam recomendar que os dados sobre policiais mortos em serviço sejam lidos em conjunto com outros indicadores de segurança pública do estado, como letalidade violenta geral, mortes decorrentes de intervenção policial e evolução de crimes contra o patrimônio, já que esses números tendem a se relacionar entre si. Um ano com aumento expressivo de confrontos armados envolvendo o crime organizado, por exemplo, tende a refletir tanto no número de vítimas civis quanto no de policiais mortos ou feridos em serviço, o que reforça a importância de análises que considerem o conjunto desses indicadores, e não apenas um número isolado.
Órgãos como o próprio ISP-RJ costumam publicar relatórios periódicos que cruzam esses diferentes indicadores, permitindo que pesquisadores, jornalistas e formuladores de políticas públicas tenham uma visão mais completa da dinâmica da violência no estado ao longo do tempo, para além de números isolados divulgados pontualmente.
Homenagens e reconhecimento institucional
Policiais mortos em serviço costumam receber homenagens formais dentro das próprias corporações, incluindo cerimônias de honra, promoção póstuma em casos que atendem aos critérios legais, e, em muitos batalhões, registros permanentes que preservam a memória do profissional dentro da unidade em que serviu. Esse tipo de reconhecimento institucional é visto como parte importante do acolhimento simbólico às famílias de policiais falecidos em serviço, além de servir como reforço da identidade coletiva de cada unidade operacional.
Organizações de familiares de policiais mortos em serviço também atuam, em diferentes estados, cobrando políticas públicas de assistência a viúvas, viúvos e filhos de policiais vitimados, incluindo pensões, prioridade em programas habitacionais e apoio psicológico de longo prazo — pautas que costumam ganhar força justamente a partir da divulgação de dados como os produzidos pelo ISP-RJ, que dão visibilidade institucional ao problema.
O impacto psicológico e familiar do risco constante
Além do impacto estatístico, especialistas em saúde ocupacional voltada à segurança pública apontam que o risco constante de morte ou lesão grave em serviço tem efeitos psicológicos relevantes sobre policiais e suas famílias, incluindo níveis elevados de estresse ocupacional, ansiedade relacionada ao trabalho e, em alguns casos, sintomas associados a transtornos de estresse pós-traumático após episódios de maior gravidade vividos em operações. Esse é um dos motivos pelos quais corporações de diferentes estados vêm ampliando, ainda que de forma gradual, programas de suporte psicológico voltados especificamente a policiais da ativa e a familiares de vítimas de violência em serviço.
Esse tipo de suporte é considerado, por especialistas em gestão de recursos humanos na segurança pública, complementar às medidas de proteção física e operacional, já que o enfrentamento do risco constante ao longo de uma carreira de décadas — como costuma ser o caso de subtenentes e outros praças mais experientes — exige também um cuidado continuado com a saúde mental desses profissionais.
Transparência e dados abertos como ferramenta de controle social
A existência de um portal de dados abertos mantido pelo ISP-RJ, com informações periodicamente atualizadas sobre policiais mortos em serviço e outros indicadores de segurança pública, é apontada por especialistas em transparência pública como um instrumento importante de controle social sobre a gestão da segurança no estado. Ao disponibilizar esses números de forma aberta, o instituto permite que jornalistas, pesquisadores, parlamentares e a própria sociedade civil acompanhem a evolução desses indicadores de forma independente, sem depender exclusivamente de divulgações institucionais pontuais feitas pelo governo do estado ou pelas próprias corporações.
Esse tipo de transparência é considerado, por organizações de defesa da segurança pública baseada em evidências, um elemento essencial para qualificar o debate público sobre o tema, permitindo que decisões de política pública sejam avaliadas à luz de dados concretos, e não apenas de percepções ou relatos pontuais sobre episódios isolados.
Um risco que atravessa gerações de policiais
Para quem, como Nei Machado, soma décadas de farda dentro da PMERJ, esse tipo de estatística não é abstrato: é parte do contexto profissional vivido ao longo de toda uma carreira dentro da corporação. Entender esses números, com base em dados institucionais oficiais, ajuda o público a dimensionar de forma mais precisa — e menos passional — um dos aspectos mais sérios da rotina de quem decide seguir a farda no Rio de Janeiro.
Ao final, o que esses dados institucionais oferecem é justamente isso: uma base factual, sujeita a verificação e atualização pública, para qualquer debate sério sobre o risco enfrentado por quem trabalha na segurança pública fluminense, longe de estimativas soltas ou relatos anedóticos sem lastro estatístico.